A história real (e imperfeita) de como uma viagem desastrosa à Itália se tornou o ponto de partida para criar a Bagagem Extra

Tem uma foto guardada no meu celular que eu olho toda vez que estou na dúvida se escolhi o caminho certo. É uma foto do quarto de hotel em Roma. Um quarto escuro, pequenininho, com a janela dando para um corredor interno cheio de tubulação aparente. A cama tinha um edredom cinza desbotado e cheirava a mofo. Eu e o Eduardo estávamos ali, com as malas enormes que mal cabiam entre a cama e a parede, olhando um pro outro com aquele silêncio pesado de decepção.
Tínhamos economizado por dois anos para aquela viagem. Era aniversário de casamento, era a Itália dos sonhos, era tudo que a gente tinha imaginado. E ali estava: um hotel que custou caro e entregou miséria, num bairro que ficava longe de tudo que importava, escolhido porque estava na primeira página de um site de reservas.
Essa foto é a razão pela qual a Bagagem Extra existe.
Antes daquela viagem, eu achava que sabia planejar. Lia blogs, marcava pins no Google Maps, montava planilhas no Excel com cada dia organizado em blocos de hora. Tinha a sensação de estar no controle. Seis meses de pesquisa para dez dias na Itália, e eu achava que tinha coberto tudo.
O que eu não sabia é que existem coisas que só alguém que conhece um lugar de verdade pode te dizer. Que aquele bairro em Roma que parece central no mapa é, na prática, longe de tudo o que você vai querer visitar. Que o trem para Florença tem uma política de reserva de assento que não está escrita em nenhum blog. Que o restaurante com mais avaliações no TripAdvisor perto do Coliseu é exatamente o lugar onde você vai comer a pior pasta da sua vida por um preço que vai doer durante dias.
Aprendi tudo isso da pior forma.
No segundo dia, chegamos correndo na Estação Termini, malas pesadas, para pegar o trem que eu tinha reservado com antecedência. Mas eu não sabia que havia diferença entre o bilhete e a reserva de assento, e que sem a segunda o bilhete não era válido naquele horário específico. Perdemos o trem. Compramos novos bilhetes no guichê, muito mais caros. O Eduardo ficou quieto o resto do dia. Eu fiquei com aquela culpa que gruda no peito e não sai.
No último jantar em Roma, fomos parar num restaurante que tinha cardápio enorme, foto de tudo, e um garçom na calçada convidando as pessoas a entrarem. Sinal claro, hoje eu sei. Na época, pareceu conveniente. A conta veio absurda e a comida foi esquecível.
Voltamos com memórias bonitas também — a Itália é linda demais para não ter — mas com um gosto residual de que poderíamos ter aproveitado tanto mais se soubéssemos o que estávamos fazendo.
Eu trabalhava com marketing naquela época. Tinha uma carreira estável, clientes fixos, uma rotina que funcionava. Mas aquela viagem ficou como um caroço na garganta que não passava.
Comecei a estudar de uma forma diferente. Não mais para planejar as minhas próprias viagens — para entender o que tinha dado errado e o que teria feito diferente. Li sobre hotelaria, sobre logística de roteiros, sobre como os melhores guias de viagem escolhem o que recomendar e o que descartar. Comecei a ajudar amigos a planejar as viagens deles. Depois conhecidos. Depois conhecidos de conhecidos.
O que fui descobrindo foi que planejar viagem bem é uma habilidade real, aprendível. Não é intuição, não é sorte de quem viajou muito. É método. É saber fazer as perguntas certas, conhecer os destinos em profundidade, entender o perfil de quem vai viajar antes de sugerir qualquer coisa.
E foi aí que comecei a perceber que tinha algo concreto a oferecer.
Seria bonito dizer que foi fácil. Que um dia eu simplesmente soube que era hora e dei o salto. Mas a verdade é que demorei quase dois anos entre ter a certeza de que queria mudar e de fato mudar.
Tinha medo do óbvio: de não ter clientes, de não conseguir sustentar a transição financeiramente, de as pessoas não entenderem o que era um travel designer num país onde isso ainda não tinha nome. Mas tinha também um medo mais profundo, que demorei para admitir: o medo de me expor. De colocar o meu nome numa coisa e ser responsável pelo sonho de alguém.
Porque é disso que se trata, no fim. As pessoas chegam com um sonho — lua de mel, viagem em família, aquela viagem que adiaram por anos — e depositam esse sonho na minha mão. É muita responsabilidade. E eu sabia disso antes de começar.
O primeiro cliente foi uma amiga próxima. O segundo foi indicação dela. O terceiro eu não conhecia pessoalmente. E foi quando o terceiro voltou da viagem e me mandou uma mensagem dizendo que havia sido a melhor experiência que tinha tido como viajante que percebi que tinha algo real nas mãos.
Logo no começo, tive um cliente que queria fazer uma safári no Quênia com um orçamento bem abaixo do que aquele destino exige para uma experiência decente. Eu poderia ter fechado. Tinham opções que caberiam no valor — hospedagens básicas, parques menos expressivos, uma viagem que ele acharia razoável mas que ficaria muito aquém do que ele imaginava quando disse "safári".
Escolhi ser honesta. Expliquei que com aquele orçamento eu conseguia montar algo, mas que não seria a safári que ele tinha na cabeça. Apresentei as opções: ajustar expectativas, ajustar orçamento, ou escolher outro destino igualmente incrível que entregasse mais dentro do que ele podia investir.
Ele ficou surpreso. Disse que nenhuma agência tinha feito aquilo antes. Que todo mundo simplesmente fechava o que ele pedia sem perguntar nada mais.
Aquela conversa virou a base de tudo. Decidi que a Bagagem Extra seria o lugar onde as pessoas receberiam a verdade sobre o que estão comprando antes de comprar. Que eu recusaria clientes quando não fosse a escolha certa para eles. Que seria uma guia honesta, não uma vendedora de pacotes.
Isso tem um custo. Há negócios que não fecho. Mas os clientes que ficam ficam porque confiam, e confiança é a única coisa que faz esse trabalho ter sentido de longo prazo.
Se quiser entender melhor o que é travel design e por que ele existe, escrevi um guia completo sobre o tema: o que é travel design e como funciona na prática. E se ainda acha que isso é algo apenas para quem tem dinheiro sobrando, vale ler por que travel design não é luxo, é escolha.
Cada briefing novo me ensina alguma coisa. Uma das coisas que aprendi — e que ainda me surpreende — é o quanto as pessoas não sabem o que querem até serem perguntadas da forma certa.
A pessoa chega pedindo Paris em julho. Mas quando você pergunta por que Paris, por que julho, o que ela quer sentir nessa viagem, às vezes descobre que o que ela quer de verdade é descanso e romantismo — e que julho em Paris é multidão e calor. Às vezes o que ela quer está em outro lugar inteiramente.
Aprendi também que o silêncio de um cliente feliz não é indiferença — é confiança. Os clientes que mais me marcaram foram os que mandaram uma mensagem no meio da viagem dizendo "está exatamente como você descreveu" ou "o restaurante que você indicou foi o melhor da viagem". Essas mensagens chegam e eu paro o que estou fazendo para ler de novo.
Ainda me emociono. Toda vez.
Tem um tipo de cliente que aparece de vez em quando e que me lembra por que eu larguei a carreira anterior sem olhar para trás. É a pessoa que estava prestes a ir numa viagem mal planejada — às vezes sozinha, às vezes com a família inteira — e que, por algum motivo, parou e perguntou se havia outra forma de fazer aquilo.
Quando essa pessoa volta e diz que foi diferente de tudo que havia experimentado antes, que planejar bem foi a diferença entre uma viagem boa e uma viagem inesquecível, eu penso naquele quarto de hotel em Roma.
Penso que foi preciso perder aquela viagem para construir algo que ajude outras pessoas a não perderem as delas.
Não trocaria por nada.
Quero conhecer o trabalho da Bagagem ExtraO que vimos, o que reservamos, o que aprendemos sobre como viajar de um jeito que vale a pena. Sem oferta-relâmpago, sem pacote turístico — só travel design honesto.
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